sábado, 29 de março de 2008

Jorge Guinle, meu tipo inesquecível.

 

Texto de Everardo Magalhães Castro
Em 28 de fevereiro de 2006

Everardo Castro e Jorge Guinle

Jorge Guinle - Nascido em: 1916

Falecido em: 5 de março de 2004, aos 88 anos


Há uns anos atrás, a revista Seleções Readers Digest, publicada mensalmente, tinha como matéria constante o título Meu tipo inesquecível.

Ao longo da minha vida, elegi meus tipos inesquecíveis. Um deles foi Jorge Guinle. Eu, como muitos amigos, chamava-o Jorginho. Era como ele gostava.
Conheci Jorginho através do meu amigo Ibrahim Sued que me foi apresentado pelo Didu de Souza Campos, com quem joguei polo no Itanhangá Golf Clube. Ibrahim, sabendo que eu gostava de jazz, me proporcionou o primeiro encontro com Jorginho, no apartamento dele, no Edifício Tucumã- Praia do Flamengo , 284. Logo surgiu uma grande empatia.

O jazz, presença forte na minha vida e na de Jorge, nos uniu para sempre.

Jorginho era extremamente simpático, simples e de suprema elegância. Timbre de voz agradável e leve no falar. Seu gestual era comedido; herança de educação francesa no Collège de France – em Paris, onde estudou e se formou em filosofia, com grandes mestres dentre os quais o professor Leroy, titular da cadeira de Henri Bergson. Tornou-se um materialista dialético.
Sua alma era de esquerda.

De baixa estatura, usava para alcançar maior patamar, sapatos sob medida feitos na Casa Moreira – travessa do Ouvidor, com grande salto de cerca de 10 cm (parte interna e parte disfarçada no interior do sapato). Digo sem nenhuma indelicadeza a sua memória, pois, além de ser coisa notória, Jorginho não fazia segredo e até recomendava para os amigos baixos que o fizessem.

Quando falei sobre isso com meu pai, ele encomendou um. Outro freguês desta casa era Dr. Roberto Marinho, que fazia tais sapatos e botas de montaria.

Quase toda semana ia à sua casa .
Tocava a campainha. A porta abria, surgia o João, seu mordomo.
Seguia para uma larga varanda e, agradavelmente, me submetia ao seu roteiro de jazz. Primeiro ele colocava os discos vinil de jazz do West Coast, da Califórnia, sabedor que este estilo era da minha preferência.
João, o mordomo, ia servindo, generosamente, bom scotch e salgadinhos de fina qualidade. À medida que Jorginho percebia que eu já estava devidamente embalado pelo scotch, iniciava uma regressão, até chegar ao jazz absolutamente de sua preferência: o New Orleans.
Nessa altura, eu já estava até gostando do New Orleans. Colocando seus discos preferidos, ia fazendo comentários e revelando histórias dos seus encontros com Louis Armstrong, Jelly Roll Morton, Sidney Bechet, King Oliver e outros. Conhecia tudo, conhecia todos.

As vezes, encontrava na sua casa o Maestro Cipó, Jorginho do sax- alto, Silvio Túlio Cardoso ( jornalista de O Globo ) Aurino Ferreira, Juarez Araújo, dentre outros. Eu, Paulo Moura e João Donato tínhamos um conjunto de jazz. Apresentei ao Jorginho esses dois amigos, que passaram a participar das audições jazzísticas. Lá estavam sempre seu grande amigo Mariozinho de Oliveira, Estevão Hermann, Arlindo Coutinho e seu primo Francisco Eduardo de Paula Machado.

Eram presenças freqüentes Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Eles e Jorginho nutriam amizade e admiração recíproca.

É do nosso Vinicius a sequinte frase : de Jorge Guinle posso dizer que ninquem no Brasil e,muito pouca gente no mundo , possui a sua cultura e o seu cabedal jazzistico

Era casado com Dolores, americana, sua primeira mulher. Dolores não ajudava, nem atrapalhava. Deixava-o com seus amigos à vontade para ouvir jazz. Fiquei amigo dela e sempre tive olhos de admiração pela sua elegância e beleza. Mas, pessoa de classe mesmo era o Jorginho. Educadíssimo. Atenciosíssimo com as mulheres e com os homens também. Nunca conheci uma pessoa tão educada e agradável como Jorge.

Jorginho e os músicos americanos de Jazz

Ele era íntimo dos principais músicos americanos de Jazz, como Charlie Parker,Dizzy Gillespie, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Lester Young, Billie Holliday,Miles Davis...
Estive presente quando recebeu em sua casa Tommy Dorsey, Harry James, Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e os membros do Modern Jazz Quartet. ( vide fotos no site http://www.everardocastro.com/ )
Alguns dos seus músicos preferidos de jazz eram Lester Young (sax- tenor), Sidney Bechet (sax- soprano) e Louis Armstrong.
Para ver o prestígio que Jorginho gozava junto aos músicos americanos, recorde-se, como exemplo que , amigo do Miles Davis, falou-lhe que tinha ouvido o jovem John Coltrane tocar e sugeriu ao Miles que o contratasse. Miles concordou ,e assim foi feito.

Além do jazz, tinha um outro hobby . Uma preciosa coleção de locomotivas, expostas em prateleiras, numa sala especial do seu imenso apartamento. Quando ele mostrava peças desta coleção, parecia uma criança feliz com seus trenzinhos. Tinha locomotivas e vagões de alto valor, adquiridas ou presenteadas pelo seu pai, Dr. Carlos Guinle que, com sua esposa D. Gilda, morava no mesmo edifício.

Dr. Carlos foi homem de importantes realizações. Financiou e construiu a estrada Rio-Petrópolis. A ligação dele com minha família, concretizou-se por ter sido o engenheiro Álvaro Ribeiro de Almeida e luz, meu avô materno, quem participou com ele nesta obra.

Jorginho, algumas vezes, vinha à minha casa no Alto da Boa Vista, ouvir jazz. Surgia na rua, o seu carro de luxo e motorista com quepe. Ficávamos horas ouvindo as últimas novidades de Jazz.

Então quem fazia o roteiro era eu. Aí só dava West – Coast. Tudo numa boa pois , apesar de não ser o da sua preferência , gostava também. Tem mais um detalhe : eu não tinha disco da escola New Orleans

Jorginho e o trabalho

Trabalhar, na verdadeira acepção da palavra, nunca foi preocupação na sua vida. O máximo que fazia era ir, duas vezes ao mês, à Cia. Internacional de Seguros, empresa presidida pelo Celso Rocha Miranda, e da qual era acionista.

Mas, naquilo que se dedicava, revelou-se um trabalhador operoso e perseverante. Esta faceta consubstanciou-se em vários momentos quando:

- divulgou o carnaval nos EUA, trazendo importantes artistas.
- foi o brasileiro que, naquela época, atuou mais fortemente no exterior projetando o nome do Brasil;
- foi amigo de 5 presidentes dos EUA, inclusive John Kennedy e Roosevelt;
-sentou-se nas primeiras filas de quase todos os Oscars (ali estava o único brasileiro representando o nosso país).
-ajudou artistas brasileiros nos EUA, apresentando e marcando encontros com os seus poderosos amigos do show business;
- com seu amigo Nelson Rockfeller, empenhou-se, junto ao Presidente Getulio Vargas, amigo do seu pai, para que o Brasil se colocasse ao lado dos americanos na segunda guerra mundial. Jorginho tinha voltado da Europa e ficara alarmado com o avanço do nazismo e omissão de muitos europeus. Bota trabalho nisto, pois o nosso presidente, pressionado por alguns brasileiros, tardava em decidir.

- abriu portas para vários empresários brasileiros no exterior, fazendo muito mais que ministros da época .
- ninguém fez tanto pelo turismo brasileiro, até hoje, quanto Jorge Guinle.
- amigo dos poderosos de Hollywood, empenhou-se para que não se abafasse o ainda incipiente cinema brasileiro.
Trabalho, trabalhou sim. Pois nada disto – e mais ainda do que não foi dito – se faz sem um exaustivo e persistente trabalho.


Jorginho e a filosofia

Em alguns momentos conversava com Jorginho sobre outros assuntos. Até que um dia ele me surpreendeu completamente.

Eu tinha acabado de me formar em Direito. Não sei se por esta razão, ou outra, ele dirigiu a conversa na direção filosófica.

Sabia que tinha cultura, manifestada sem a menor afetação. Mas não imaginava que conhecesse, profundamente, o pensamento de Marx, Hegel, Descartes, Rousseau, Kant, Berkley, Leibnitz, Heidegger e outros mais. Citava esses nomes e aprofundava comentários.

Quando começou a falar de Marx, deu-me a perceber que, além do conhecimento, tinha forte simpatia pelo socialismo.

Ouvindo, poder-se-ia imaginar estar ali um pensador de esquerda e...era.

Se hoje ele tivesse um diálogo filosófico com Fernando Henrique, acredito que levaria vantagem, sem dizer que não teve o apoio do Florestan Fernandes, este sim, a bengala e caneta de FH.

E , tem mais : ele poderia justificar as origens de sua fortuna ao contrario de certo professor que jamais poderá faze-lo. Afinal, como dizia o Gonzaguinha , não somos burros, nem babacas.

Esta primeira conversa sociológica deu-se quando ele me convidou a passar um fim de semana na Granja Comary, em Teresópolis. Fiquei hospedado numa casa ampla, de bela arquitetura, cercada de grande área verde, com lagos e matas. É onde está sediada hoje a concentração da CBF e mais um condomínio .

Na sala principal , existia um piano de cauda inteira, Steinway. Foi neste piano que toquei minhas primeiras músicas para ele.

Posteriomente esta bela propriedade foi vendida ao Renato Aragão.


Jazz no Rio

Passado algum tempo, idealizamos juntos, o 1º Grande Concerto Brasileiro de Jazz, realizado no Golden Room do Copacabana Palace. Convidamos Silvio Túlio Cardoso, Ary Vasconcellos e outros para nos ajudar a organizar o concerto.



Formou-se uma grande Orquestra comandada pelo Maestro Cipó e com a participação de 40 músicos escolhidos entre os melhores. Lá estavam: Zé Bodega, Luiz Vidal, Kachimbinho, Aurino, Biju, Jorginho do sax-alto, Paulo Moura, Sut, Nelsinho do trombone e tantos outros . O concerto, com a presença da sociedade, foi em beneficio de uma instituição de caridade e teve apoio do jornal “O Globo”, através do Rogério Marinho, nosso amigo e amante do Jazz, e de seu irmão Ricardo Marinho, mais ligado à música clássica.

Pouco tempo depois fundamos o Clube de Jazz e Bossa. Convidamos para fundadores Silvio Tulio, Luiz Orlando Carneiro, Ricardo Cravo Albin, Ilmar Carvalho, Ary Vasconcelos e outros.

Nós dois fomos ao Palácio Laranjeiras ( pertenceu ao seu tio Eduardo Guinle) para encontrar com o Presidente Juscelino e dar notícia da fundação do Clube. Era impressionante ver a atenção que o Presidente Juscelino dedicou ao Jorginho, lembrando que estava hospedado no palacete que foi da família Guinle. Na mesma hora ligou para o Bené Nunes comunicando a criação do clube e pedindo que desse, também, todo o apoio. Bené era amigo querido do Presidente . Aliás todos gostavam do Bené, especialmente os músicos.

Aconteceram, então, dois momentos marcantes na sua vida: primeiro a separação de Dolores; depois a morte de seu filho.



Antes, Jorginho tinha perdido o irmão, Carlos Guinle, parceiro de Dorival Caymmi nas músicas Não tem Solução, Rua Deserta e Sábado em Copacabana.

Um dos brasileiros mais conhecidos e respeitados no exterior , era uma espécie de Embaixador do Brasil.

Mas, falando em Jorginho, não posso esquecer do seu pai ,Dr. Carlos, que, gostando muito de música, foi mecenas de vários artistas, especialmente Villa- Lobos.

Pai e filho foram importantes também na vida artística do Maestro Eleazar de Carvalho, Jacques Klein, Pixinguinha, Dick Farney, Luizinho Eça e vários outros.

Na mídia brasileira estes artistas contaram com apoio expressivo do O GLOBO através do três irmãos ( Roberto , Ricardo e Rogério ).
Carmen Miranda , Luiz Bonfá, Laurindo de Almeida, Aluisio de Oliveira tiveram em Jorginho um importante apoio nos EUA.

Lembrando de tais fatos, pergunto: "- Onde estão os mecenas de hoje?"

Brasileiros de imensas fortunas são incapazes de, como os norte - americanos e europeus, serem mecenas e apoiarem a cultura brasileira.
Artistas brasileiros, de grande valor, peregrinam de porta em porta em busca de patrocínio. E, mesmo com Lei Rouanet e incentivos estaduais, acabam por receber um sonoro não e, pior, às vezes nem serem recebidos a fim de exporem seus projetos.

-Por acaso sabem, esses poderosos homens de imensas fortunas, que os melodistas brasileiros são considerados os melhores do mundo?
-Por acaso sabem que a OSESP (Orquestra Sinfônica de São Paulo é uma das melhores do mundo)?
-Será que sabem, ou, se sabem, se esqueceram que, se não fosse o o Dr. Carlos Guinle, talvez Villa Lobos não tivesse o reconhecimento que ,voltando da Europa , passou a ter ?
Sim, porque no Brasil ainda é assim: você precisa vencer lá fora para depois ser respeitado aqui.

Todos o adoravam

Cercado de luxo e notoriedade, Jorginho não transparecia, em nenhum momento, semblante de arrogância ou empáfia. Pessoa absolutamente simples.
Seu avô , Eduardo, quando morreu ,deixou uma fortuna estimada hoje em US $ 2 bilhões, de ativos ( Docas de Santos, Banco ,valiosos imóveis,fazendas, haras , companhias de seguros ......). Era a maior fortuna do Brasil.

Se, os herdeiros ( 7 filhos ) tivessem desenvolvido aqueles ativos , hoje poderia ser um patrimônio da ordem de US $ 6 bilhões.

Mas, da parte de Jorge, que sucedeu ? O dinheiro para ele não era soberano. Não se fazia escravo do dinheiro. Servia para viajar em grande gala , ajudar seus amigos músicos, ajudar as pessoas, viver fazendo o bem.

Nunca ouvi Jorginho fazer critica a ninguém. Se ele não gostasse de alguma coisa ou de alguém, tinha uma forma de manifestar, toda especial, onde não se via ironia ou desdém.

Jorge Guinle e o Copacabana Palace


Mas não devo terminar essa pequena história sem falar de sua ligação com o Copacabana Palace e o carnaval. Foi ele quem trouxe famosos artistas de Hollywood para assistirem ao carnaval do Rio, colaborando, fortemente, para sua divulgação no mundo. No Copacabana Palace eram hospedados os artistas. E, neste hotel, ele tinha o seu quartel general de encontros e articulações.
Jorginho, ao lado de Oscar Ornstein (relações públicas do Copa), promovia grandes eventos no Copacabana Palace.
O Copa, assim chamado, era de propriedade de seu tio, Otávio Guinle. Mas de tal forma ele se fazia presente, muito querido pelos empregados do hotel, que o Copacabana Palace era... Jorge Guinle.

Naquela época as coisas aconteciam no Bife de Ouro ou na pérgula do Copacabana. Em alguns apartamentos do anexo, rolavam encontros amorosos de toda ordem.

Na pérgula e no Bife de Ouro despontavam duas figuras interessantíssimas: Fery Wünsch, maître d’hotel durante mais de 40 anos e Alberto ( um simpático gordinho ) , sommelier do restaurante Bife de Ouro.

Fery resistiu a ideia de contar no livro que escreveu , incríveis e impressionantes encontros de certas pessoas da alta sociedade. Inclusive de dois famosos jornalistas, para os quais levava bebidas e salgadinhos ao apartamento do anexo.



Alberto, por sua vez, testemunhou segredos ouvidos de pessoas importantes durante encontros, no Bife de Ouro, de famosas pessoas.

Ambos guardaram seus silêncios.

Vale lembrar as palavras do Ibrahim Sued: “Maitres e garçons não vêem, não ouvem e muito menos falam. Os que se prestam a esse papel não são dignos de uma profissão tão merecedora do nosso reconhecimento. Alguns, infelizmente, são até alcagüetes e ouvem a nossa conversa para repetir a quem lhes paga para isso”. Neste ponto, Ibrahim deveria estar falando de alguns que – assim se comentava – vendiam informações ao SNI (orgão de informação do governo militar).
Na Pérgula e no Bife de Ouro, especialmente nos fins de semana, reuniam-se jornalistas, famosos políticos, empresários, todo o arco-íris da sociedade brasileira e da Imprensa. Neles foram decididos assuntos de importância, ao sabor de um bom scotch, boa comida e linda visão da piscina.

Foi no Copacabana Palace que, almoçando com Jorginho, coisa freqüente, conheci alguns dos seus pratos preferidos: camarão à Maria Stuart, Steak Diana e Steak Tartar.Não sei se o Bife de Ouro ainda tem no cardápio estes pratos.

A sobremesa era quase sempre crepe suzette. Já ia me esquecendo do strogonoff, mas que strogonoff !

Jorginho, além do Copacabana Palace, seu QG, gostava de freqüentar o Vogue (Av. Princesa Isabel), onde imperava o porte do Barão Max Von Stuckart. Uma de suas preferências, também, era o Sacha`s, boîte localizada no Leme (Av. Atlântica). Seu dono, Sacha Rubin, era absoluto no piano de cauda. Sacha, sempre com cigarro no canto da boca, a cada cliente importante ou amigo que adentrava, tocava a música de sua preferência. No repertório predominava Cole Porter. O baterista do trio era o Paulinho Magalhães. Algumas vezes dei canja na bateria. Jorginho também. Ele tinha uma bateria na sua casa e gostava de tocar sax-tenor. Mas, no sax, em vão era o seu esforço. Na bateria levava jeito.

No fundo do lado esquerdo , de quem entrava no Sacha’s, era território do Aristides, o barman. No balcão do bar, várias personalidades importantes debulharam lágrimas ou confessaram segredos ao Aristides, sabendo que ele jamais trairia confiança.

O maître do Sacha`s era o Luiz. Sempre elegante no seu smoking, de porte altivo e classudo, Luiz era o Senhor maître da noite carioca chique. Pessoas importantes da sociedade tratavam Luiz com respeito e, às vezes, com reverências. Dependia dos seus valores e humores a localização das pessoas em mesas mais nobres ou na geladeira (“sibéria”, como Ibrahim chamava). Luiz, também, era guardião de segredos, histórias, desenlaces. Era discreto profissional da noite elegante.

Mas, uma vez, ele contou a um amigo comum lances que, vez por outra, observava. Por exemplo: movimentos eróticos debaixo da mesa, fora da vista dos presentes, mas que Luiz , com seu olhar de águia, percebia, vendo o semblante feliz do cavalheiro agraciado com as benesses da dama...

Luiz, também, dispunha de 2 apartamentos no edifício do Sacha’s, que eram articulados por ele para determinados encontros.

Pessoa de constante presença era João Goulart, antes de ser Presidente e, depois, como Presidente. Lá ia o Jango, sem seguranças e aparatos mas, quase sempre, com o seu secretario Caillard. Eram outros tempos.

Luiz também sabia driblar certos telefonemas de marido procurando mulher e mulher procurando marido, ou amantes se procurando. Trapalhadas e problemas que administrava com categoria e boa sabedoria, coisa de profissional da noite. Já não se fazem “Luizes” como em outros tempos.

Palavras finais

Jorginho gastou a sua fortuna, moeda por moeda, dia por dia, absolutamente consciente do que fazia. Não imaginava que fosse viver tanto . Fez cálculos que permitiriam terminar sua vida com seus últimos recursos. Errou nos cálculos. Viveu seus últimos anos com pequena aposentadoria do INSS e complementar ajuda do seu amigo Baby Monteiro de Carvalho. Nunca se saberá
a dimensão da ajuda do Estevão Hermann ao Jorge. Estevão generoso e
discreto , jamais revelará.

Jorge estava morando num modesto apartamento na Gávea.Mas, não se via nele nenhum traço de amargura.

Meu último encontro deu-se quando lançou nova edição do seu livro, pioneiro, Jazz Panorama. Guardo foto e dedicatória, linda recordação.Não tive coragem de visitá-lo na Gávea. Sabia que algumas cortinas estavam rasgadas, os sofás não tinham as cores e textura de antigamente...
Andava de táxi e, algumas vezes, de ônibus.

Tive estas notícias. Vacilei. Não fui ao seu encontro. Revelo este fato sem receio de críticas, pois eu mesmo me adianto. Na minha cabeça, achava que Jorginho, muito inteligente e sensível, iria perceber traços do meu semblante, reveladores da melancolia que eu sentiria.

Sem desculpas. Perdão, Jorginho.

Viveu no Brasil e no exterior todos estes fatos narrados e outros. Discreto, morreu às 4,30 hs. do dia 5/2/1916, na suíte 153 do Copacabana Palace , vitima de um aneurisma da aorta abdominal, guardando alguns segredos. A direção do Copa ,através do seu diretor Philip Carruthers e Claudia Fialho proporcionaram todas mordomias, num gesto admirável de fidalquia .

Sua morte foi noticiada nos principais jornais do mundo e publicada na primeira página do New York Times.

Jorge não foi apenas um play boy de primeira grandeza.É preciso que os brasileiros saibam que ele foi uma personalidade quecolocou sua inteligência, ardor, sonhos e feitos a serviço do Brasil.

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E agora que estou terminando esta pequena história, ocorre-me uma idéia que desejo encaminhar: a de que seja prestada uma homenagem póstuma a Jorge Guinle, conferindo a ele a Ordem da Cultura, pelos relevantes serviços que prestou a música brasileira e ao intercâmbio cultural Brasil – Estados Unidos.

Recordo uma frase de Jorge Guinle que poderá ser uma sugestão, ainda que tardía, válida.
Depois de nominar nomes de importantes artistas estrangeiros que ele trouxe ao Brasil, disse: “Modéstia a parte, só eu poderia ter trazido tantas estrelas para cá. O país me deve isto. Pelo menos uma medalhinha eu merecia do meu Rio de Janeiro, não?”.

Frases do Jorginho

“Epicuro dizia, trezentos anos antes de Cristo, que a vida é uma busca de prazeres. Tive a felicidade de ser playboy, o que me permitiu conhecer todas as formas de prazer. O dinheiro me possibilitou muita coisa, inclusive estar com mulheres incríveis. No meu caso, playboy e filósofo se complementam perfeitamente. Sou filosoficamente materialista. Para mim, prazer é a realização plena dos nossos valores; emotivos e intelectuais. Claro que esses valores variam de pessoa para pessoa, mas não acho que deveria existir o prazer resultante da inveja, o prazer do ódio, do ressentimento, do fanatismo".

"Sempre achei que as relações humanas são mais importantes do que a satisfação dos bens materiais."

“Detesto ostentação, não aceito o absurdo poder do dinheiro e tenho horror a qualquer manifestação nouveau riche."

“O que tem importância é a liberdade, e isso porque a verdadeira liberdade é a consciência, portanto a livre escolha. O problema é que não é explicável."

( Jorge Guinle )

3 comentários:

Marcio disse...

O blog ficou de muito bom gosto. Parabéns.

Saúde e sucesso

rony disse...

O blog com exelente bom gosto,de leitura facil,acessível a todo tipo de leitor,contribuindo com passagens por alguns principais destaques do periodo historico da musica brasileira.descrevendo como um simples olhar e´capaz de relatar imagens de um grande mito brasileiro da maneira de levar a VIDA. Abraço RONY

Cristina Reis disse...

Gostei muito do seu blog. Estou colocando no blog da entidade associativa (AMA 2, 3, 4 e 5 de Copacabana) o início da construção e a história do Copacabana Palace Hotel. E navegando na internet deparei com o seu blog que elucidou muita coisa que tinha a respeito do Jorginho Guinle. Foi uma grande figura do cenário mundial. O Brasil deve muito a ele pela divulgação cultural de nossa cultura. O que não entendo, que a estátua do Ibrahim Sued que está em frente ao Copacabana Palace, não é do Jorginho Guinle. E como tal, nada tenho contra o jornalista Sued, mas é a do Jorginho que deveria estar lá. Quanto ao reconhecimento, vou procurar correr atrás para que o seu nome seja devidamente reconhecido.